terça-feira, 17 de maio de 2011

RG

Hoje resolvi procurar, nas gavetas do esquecimento, o documento que revela quem realmente sou. 

Embrenhei-me, de posse de uma Lanterna, nos mais obscuros corredores da alma. Atravessei as pontes quebradiças da memória, escalei as muralhas intransponíveis da mente, lançando-me nos rios caudalosos do consciente até desembocar no profundo abismo do inconsciente. Tomei então uma longa escada que descia na direção do vazio. Um elevador seria mais apropriado? Não! É um caminho que se deve fazer caminhando, não deslizando. Chega de deslizes! Bastam os que nos esperam nas andanças da vida. 

E lá no fundo, na parede mais profunda do meu ser, encontrei impresso com o mais puro sangue, o divino polegar do Pai, marca indelével da Mão Criadora. Registro irrevogável da minha condição de Filho. 

- Nome do Pai: Pai. 
- Nome da Mãe: Maria. 
- Número de registro: Não importa, não sou um número! 
- Assinatura: FILHO DO ALTO.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ressurreição

Após o último suspiro, após a entrega final, eis que ela apareceu, trajando o seu velho manto negro, rasgado pelas unhas do tempo, seu fiel companheiro. Portava consigo sua tão conhecida foice. Afiadíssima! Assistira todo o sofrimento de camarote, aguardando calmamente a sua hora. Aproximou-se da Cruz e, tomando o Homem pelo pescoço, levou-O às profundezas de sua morada.

Sem reagir, o Homem deixou-se conduzir a tenebrosa mansão. Lá chegando, não fez alarde, mesmo reconhecendo muitos dos seus. Sentou-se numa velha poltrona e começou a contar parábolas às miríades e miríades que ali moravam. Era uma sexta-feira, triste e escura. No sábado, continuou seu ofício de contador de histórias, atraindo para Si a atenção de um número cada vez maior de condenados. 

Tudo transcorria tranquilamente nas moradas da Morte, até que, na madrugada do domingo, algo inesperado aconteceu. O Homem, que dormia um sono profundo, foi acordado por uma voz altissonante. Era o Pai, chamando-O. Obediente, como sempre, levantou-se e viu que suas vestes resplandeciam. Era um brilho tão forte que despertou toda a casa. As portas do recinto tombaram, abaladas por um grande tremor, e o Homem encaminhou-se para fora. Todos aqueles que ouviam suas histórias, seguiram-nO. A anfitriã, em desespero e cega pelo brilho intenso, esbarrou na única coluna que sustentava a cumieira da velha mansão, que veio abaixo. 

Assim, a tenebrosa foi soterrada por seu próprio teto, juntamente com todas as cadeias que prendiam os Filhos daquele Homem, o Homem que venceu a Morte.

sábado, 26 de março de 2011

MAR














Ah, irmão MAR, um tal Francisco diria,
que alegria é estar de volta ao teu aprisco.
Mergulho agora no encanto do teu manto e me embalo no canto de tuas ondas.

Tua grandiosidade me remetes a grandiosidade do Criador.
Diante da tua face, percebo o quão pequeno sou
e lembro do tão esquecido Senhorio de nosso Redentor.

Não é a toa que estás até no nome da Bem-aventurada: MAR-IA.
Assim como ela, cheio de Graça.
Criatura, obra-prima das mãos do Senhor.

Tu, onde as redes são lançadas,
lança redes no meu ser, para pescar minhas desilusões
e guardá-las nos cestos da Misericórdia que te habitas.

Tu, que imitas o teu Mestre,
faz o milagre da multiplicação dos peixes,
o pão daqueles que vivem do teu sustento.

Por tudo isso, ó MAR, é que és divino,
divina criatura da divina Providência,
pedaço de céu que Deus deixou derraMAR.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bicho que voa












De repente,
veio descendo do Céu,
num vôo singelo e gracioso.

Pairou sobre a minha cabeça e,
num rápido movimento,
pousou sobre a minha mão.

Fitou-me,
como se fosse pedir algo,
mas não pediu.

Cantou,
bicou,
pulou,
calou.

E eu,
chateado,
preocupado,
não dei trela ao pobre emplumado.

Olhou-me uma última vez,
ruflou as asas e partiu,
o bicho que voa,
chamado Graça.

Sol











Oh, insólita solidão,
que tão solenemente solidifica o coração,
solicito que te vás e me deixes só,   
pois o Sol, tão solidário,
já se encontra a soleira da minha porta,
para não me deixar solitário.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Rubras lágrimas












Da chaga aberta do coração
transpassado pelas lanças da vida,
gotejam rubras lágrimas
que caem sobre a humanidade corrompida.

E gotejam
gotejam
gotejam
goteja
gotej
gote
got
go
g
g

g

g

Gotejam até o coração esvair-se por completo,
num profundo e eterno ato de Amor.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Venho












Venho por meio deste, criar tudo a partir do nada,
soprar o sopro da vida nas narinas de barro,
transformar uma simples costela na mais querida companhia,
fazer chover dilúvios para limpar as humanidades encardidas.

Venho por meio deste, refazer alianças,
eleger homens simples e ricos em temperança,
multiplicar descendências e esperanças,
livrar a nação santa do chicote e das mais terríveis ignorâncias.

Venho por meio deste, abrir o mar,
fazer o povo caminhar,
tirar água da pedra para as sedes saciar,
fazer chover pão e aves para as fomes aplacar.

Venho por meio deste, oferecer terras incríveis,
derrubar reinos e erguer profetas e juízes,
transformar pastores em guerreiros invencíveis,
libertar das cadeias os cativos infelizes.

Venho por meio deste, nascer numa manjedoura,
ser perseguido pelas forças dominadoras,
fugir para outras terras em busca da paz redentora,
ensinar aos sábios e doutores as leis vindouras.

Venho por meio deste, transformar a água em vinho,
ensinar quem é a Vida, a Verdade e o Caminho,
mostrar que Deus provê até a vida de um simples passarinho
e que Ele veste os lírios do campo com o mais puro linho.

Venho por meio deste, ser Sal da terra e Luz do mundo,
expulsar dos corpos a má influência do imundo,
curar cegos, coxos, leprosos e moribundos,
santificar prostitutas com a força da Palavra e do testemunho.

Venho por meio deste, padecer numa Cruz,
ter o coração transpassado por uma lança sem fazer jus,
ressuscitar, no terceiro dia, com vestes de Luz,
ser imagem e semelhança de Cristo Jesus.

Venho por meio deste e só venho porque a Graça vem primeiro,
pois sem Ela, não viria.
Aliás, sem Ela, para onde iria?
Ficaria, definharia, nada seria.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O que vem de dentro












O que vem de dentro,
Vem como um mergulhador apnéico
Que emerge às pressas
Em busca do ar redentor.

Quando chega a superfície
E sacia a sede dos pulmões,
Sopra o Sopro Santo
Que pousa sobre a folha
De papel mais branca.

E movida pelo mesmo Sopro,
A folha voa aos mais distantes alguens,
Para mergulhar nas profundezas destes
E tornar-se, como fora no princípio,
Apnéico mergulhador.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Lágrima












Lá no escuro,
Nas profundezas do íntimo,
Onde se enterram as lembranças esquecidas,
Uma Centelha piscou.

As comportas dos sentimentos abriram-se e,
Num turbilhão de hormônios e neurotransmissores,
O que piscou viajou
Até atingir o sentido que tudo vê.

Misturou-se a um suco de água,
Sais e outras humanidades e,
Com a força que veio,
Rompeu a represa das pálpebras.

Rolou então suave, doce,
No rosto marcado pelas ranhuras do tempo
Até que, num salto,
Lançou-se a terra,
Para nunca mais voltar,
A lágrima que um cristão chorou.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Brincadeira palavreada












Poeta: Oh, palavras,
Vamos brincar?
Trouxe lápis e papel,
Vamos começar:

Para poder palavrear palavras precisamos parar, pesquisar e, principalmente, provocar o parto dos pensamentos presos às profundezas da psique.

palavras: E para tanto, peçamos a Providência do Pai e a Perspicácia do Paráclito.

Poeta: Perfeito!

palavras: E com a Palavra,
Não vamos brincar?

Poeta: Não, com Esta não se brinca,
Se planta.

palavras: Mas não é planta!

Poeta: Mas é semente
Que cresce, floresce e amadurece,
E bendito aquele que nunca A esquece
E que sempre A obedece.