sábado, 11 de junho de 2011

Fome

Café da manhã reforçado: uma fatia de pão, queijos brancos, frios à base de carne de aves, leite desnatado, frutas diversas e suco de laranja com aveia. Lanche das nove com três biscoitos sem recheio, frutas e líquidos à vontade. No almoço, folhas verdes, vegetais crus, duas colheres de sopa de feijão, duas colheres de sopa de arroz, um pedaço de bife na chapa e frutas da estação para acompanhar. No lanche das quinze, dois pãezinhos de queijo com um copinho de suco. No jantar, uma sopinha vegetariana acompanhada com pães e um pequeno pedaço de peixe grelhado. Dieta recomendada pelos melhores nutricionistas e por outros profissionais afins. Mas nada disso ameniza a louca fome que me angustia já há alguns dias. Cansado e fraco, tomo uma atitude extrema: volto à mesa que há muito não ia, devido à correria desta vida de idas e vindas.

Após o banho e o jantar que não sacia, adentro ao meu quarto e tomo assento na rede branca, sempre presente nos lares cearenses, onde será o local da ceia. Eis-me aqui, digo fazendo o Sinal da Cruz! Logo chamo Aquele que irá servir a mesa: "Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o Fogo do Vosso Amor..." E Ele não tarda! Sempre no tempo certo. Tempo que é dEle.

Mesa posta, à luz de velas? Não, Luz do Mundo! Uma pitada de Sal da Terra. Abro então a Palavra! Sagrado alimento, da alma um sustento. O Pai e eu, numa comum e santa união. Servindo, o Santo Espírito. Garçom que conhece os nossos pratos preferidos, ainda que nós não os conheçamos. Restaurante sempre aberto, comida sempre quentinha, aguardando as almas famintas virem saciar as suas mais íntimas, e muitas vezes desconhecidas, necessidades.

Após essa maravilhosa Refeição, despeço-me do Senhor e lanço-me nos braços do sono, sabendo que Ele não irá a lugar algum, pois ficará velando os meus sonhos. E aos prudentes de plantão, digo: Não precisa aguardar a digestão! Ela ocorre naturalmente, no coração de todo bom cristão!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bem-aventurada aventura

Nas desventuras desta vida de amarguras,
me ponho a fazer loucuras que,
porventura, não me competem.

E as faço com a divina permissão
que me permite, até mesmo,
ferir o Divino Coração.

E na aventura da busca de minha Redenção,
encontro-me com a Bem-aventurada, Virgem repleta da Unção.
Ave, Cheia de candura! Enlaça-me no teu regaço de ternuras e lança-me nas Formosuras do ferido Coração.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Passos

Passo,
passo,
passo,
passo...

Outro passo,
mais um passo...
e em cada passo, um passo
neste divino e humano compasso.

Assim vou seguindo
no longo caminho
que se faz em cada passo,
numa sequência indefinida de passos.

Surgem então os percalços,
que me prendem em seus laços,
e em lágrimas me desfaço.

Mas logo surge um Braço,
que rompe as cordas de aço,
e no Seu Abraço me refaço.

Nele então me enlaço,
as botas do pecado eu descalço
e, descalço, continuo os passos.

Ultrapasso a dificuldade,
ultrapasso o obstáculo,
ultrapasso a tempestade.

Só não ultrapasso a Graça
que revela meus traços de Filho do Alto
e que me dá Forças para continuar meus passos.

E vou seguindo: passo, passo, passo,...

terça-feira, 24 de maio de 2011

Rede Social

Lanço minha rede social neste grande mar de homens antissociais, que vivem escondidos nas suas tristes ilhas digitais, a deriva no movimento incessante das placas afastônicas e aproximônicas, que se afastam ou aproximam-se umas das outras com extrema violência, provocando os mais terríveis terremotos da alma. E não há escala no mundo capaz de medir a ferocidade destes abalos!

Puxo então para o Alto vagarosamente, em singelos e ritmados movimentos, já sentindo que tão poucos peixes foram capturados, dada a leveza da rede. Mesmo assim, alegro-me com estes poucos que serão postos no grande Cesto reservado às primícias do Rei.

E quando o Vento soprar com força, levantarei a vela do meu pequeno barco, chamado Jesuskut, e partirei na direção das Águas mais profundas, onde abundam os peixes mais antissociais e onde superabunda a Graça da Pescaria, acompanhado pelo tuitar da Gaivota, Mestra soberana na arte de pescar, orientado pelo Facelivro ou Livroface que resplandece o verdadeiro Rosto do Mestre Pescador.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Sem fôlego

Nesta tresloucada vida de correrias incessantes e dificuldades angustiantes somos constantemente invadidos pelas devastadoras tsunamis emocionais e pelas torrentes de informações desinformantes provindas dos mais diversos meios de comunicação tão inteiros de mentiras e vazios de Verdade que arrastam para longe nossas reais aspirações bem como todas as vírgulas pontos e reticências que fazem nossa alma e nosso corpo respirarem o mais puro ar da Redenção e assim sem folêgo devido a essa história sem pontuação vamos arquejando sem conhecer quem é de fato nossa verdadeira e única Salvação

E se você está perguntando onde está a pontuação do texto acima, respondo com algumas perguntas:
Onde está a pontuação da sua vida?
Você deixa Jesus pontuar a sua história?
Você deixa Jesus colocar vírgulas nas suas sentenças?
Você deixa Jesus colocar pontos finais nos parágrafos de suas vontades desenfreadas?
Você tem coragem de se lançar nos braços de Jesus e deixar que Ele complete as reticências de sua fé?

domingo, 22 de maio de 2011

Pena

Hoje uma pena apareceu em mim. E que pena não terem aparecido mais!

Sinto que o Pássaro que habita o meu ser começa a pôr para fora as suas Graças, as suas Asas. Não por ter despertado agora, pois nunca dorme, mas por ter encontrado uma brecha na dura casca que me envolve. Que O envolve!

As pesadas penas dos percalços da vida ajudaram-me a arrebentar a gaiola que teima em prender a original filiação humana. Ajudaram-me a iniciar o longo processo de virar Ave, de virar Filho, de criar asas.

E neste longo processo, vou voando por aqui, entre uma palavra e outra, entre um verso e outro. Voando, voando, voando... e batendo as asas que ainda não tenho, vou alcançando alturas. Alturas! Não como um Ícaro desesperado, mas como um Filho abençoado, em busca do Ninho que está no topo desta grande Árvore chamada Vida.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Festa

Noite de Sábado. Aguardo ansiosamente a carona dos amigos. Eles chegam, felizes! E vou com eles, feliz!

Animação, conversas agitadas, expectativas. Chegamos! A casa já está lotada. A música já está solta. E soltos também estão todos aqueles jovens que, como eu, mergulham na louca aventura das novas descobertas. Novas sensações!

Ambiente em penumbra, corpos embalados por sons cada vez mais contagiantes. Braços erguidos, tristezas submergidas. Muitos olhos fechados, abertos para os interiores esquecidos, para as essências soterradas pelas avalanches da vida.

O tempo avança, mas permanece estacionado para nós. Neste avanço, o condutor da Festa toma o microfone em suas mãos e proclama a oferta do tão aguardado Elixir. Os funcionários da casa imediatamente espalham-se por entre os clientes, tocando-os e despejando sobre eles a referida oferta. Um deles aproxima-se de mim e oferece a Fórmula. Aceito! Entranho tudo aquilo e, em pouquíssimos segundos, sinto no corpo os efeitos da Química Perfeita!

Minhas mãos começam a queimar como brasas, arrepios profundos e lágrimas incessantes rolam. Uma euforia sem igual me toma por completo. Meus ouvidos abrem-se e ouço o quebrar das ondas do mar de línguas vibrantes, que balbuciam alfabetos desconhecidos pela razão humana. A minha também começa a vibrar, num desejo incontrolável de fazer parte deste imenso oceano. Até que, tomado por uma profunda Paz, lanço-me ao chão, num suave despencar, num singelo ato de repouso.

Palavras ecoam. Choros ecoam. Escuto tudo. Sinto tudo. Ou quase tudo! Sem forças, não consigo mover sequer minhas pálpebras.

Lentamente, minhas capacidades motoras despertam. Ao sentir o movimento natural das minhas pernas e a força dos meus braços, levanto tomado pela consciência de minha total dependência da substância entranhada. Consciência que grita dentro de mim: Não tem mais jeito! Não tem mais volta!

E de posse desta dependência, finalizo a narração de minha experiência dizendo: Nesta bendita noite, nesta bendita casa, com estes benditos amigos, participei da bendita Festa da Efusão dos dons do Santo Espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo! Ele que é o Elixir da Vida, a Química Perfeita da essência do Pai! Fórmula gestora e renovadora de toda a Criação!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Partir

Como poderia imaginar que da impossibilidade da gravidez de uma Virgem partisse a Salvação do Mundo? Como poderia imaginar que a fraqueza humana fosse o ponto de partida da Divina Ação criadora, que parte ao meio a lógica racional dos homens?

E agora, ciente destas partidas, como devo me apartar dAquele que não se aparta de ninguem? E como vou partir, partindo a Aliança que me pôs no mundo? Que partam para longe aqueles que se apartam da Graça! Não tomarei partido desta partida! Não navegarei neste mar de corações partidos.

E por falar em coração, agarro-me Àquele que todos os dias é partido por estes tais corações partidos, aguardando, ansiosamente, pelo dia em que Ele me permitirá partir para junto de Si, definitivamente, por toda a eternidade, para nunca mais pensar em partir.

terça-feira, 17 de maio de 2011

RG

Hoje resolvi procurar, nas gavetas do esquecimento, o documento que revela quem realmente sou. 

Embrenhei-me, de posse de uma Lanterna, nos mais obscuros corredores da alma. Atravessei as pontes quebradiças da memória, escalei as muralhas intransponíveis da mente, lançando-me nos rios caudalosos do consciente até desembocar no profundo abismo do inconsciente. Tomei então uma longa escada que descia na direção do vazio. Um elevador seria mais apropriado? Não! É um caminho que se deve fazer caminhando, não deslizando. Chega de deslizes! Bastam os que nos esperam nas andanças da vida. 

E lá no fundo, na parede mais profunda do meu ser, encontrei impresso com o mais puro sangue, o divino polegar do Pai, marca indelével da Mão Criadora. Registro irrevogável da minha condição de Filho. 

- Nome do Pai: Pai. 
- Nome da Mãe: Maria. 
- Número de registro: Não importa, não sou um número! 
- Assinatura: FILHO DO ALTO.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ressurreição

Após o último suspiro, após a entrega final, eis que ela apareceu, trajando o seu velho manto negro, rasgado pelas unhas do tempo, seu fiel companheiro. Portava consigo sua tão conhecida foice. Afiadíssima! Assistira todo o sofrimento de camarote, aguardando calmamente a sua hora. Aproximou-se da Cruz e, tomando o Homem pelo pescoço, levou-O às profundezas de sua morada.

Sem reagir, o Homem deixou-se conduzir a tenebrosa mansão. Lá chegando, não fez alarde, mesmo reconhecendo muitos dos seus. Sentou-se numa velha poltrona e começou a contar parábolas às miríades e miríades que ali moravam. Era uma sexta-feira, triste e escura. No sábado, continuou seu ofício de contador de histórias, atraindo para Si a atenção de um número cada vez maior de condenados. 

Tudo transcorria tranquilamente nas moradas da Morte, até que, na madrugada do domingo, algo inesperado aconteceu. O Homem, que dormia um sono profundo, foi acordado por uma voz altissonante. Era o Pai, chamando-O. Obediente, como sempre, levantou-se e viu que suas vestes resplandeciam. Era um brilho tão forte que despertou toda a casa. As portas do recinto tombaram, abaladas por um grande tremor, e o Homem encaminhou-se para fora. Todos aqueles que ouviam suas histórias, seguiram-nO. A anfitriã, em desespero e cega pelo brilho intenso, esbarrou na única coluna que sustentava a cumieira da velha mansão, que veio abaixo. 

Assim, a tenebrosa foi soterrada por seu próprio teto, juntamente com todas as cadeias que prendiam os Filhos daquele Homem, o Homem que venceu a Morte.