quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Santa Casa

* A Casa Mãe da Comunidade Recado - conheça esta Vocação: http://comunidaderecado.com

Olha a casa, casa santa, onde Deus fez Sua morada - assim diziam as velhas cantigas dos dias de Reis de minha infância. E quem diria que um dia eu viria topar numa destas santas casas. Santa Casa das mil e uma misericórdias, que me acolheu quando eu atravessava um dos períodos mais complicados de minha vida. Quero louvar e agradecer, porque Você, Senhor, me trouxe até aqui!

Casa de um certo Francisco, de uma certa Teresa, baluartes da Vocação das Belas Artes. Casa também de uma certa Das Graças, que com o seu véu branco e manto azul, debaixo do sapotizeiro, acolhe todos aqueles que chegam pronunciando a famosa jaculatória: “Ó Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós!”. Rogai por nós, ó Santa Mãe de Deus! Ela que também se encontra aos fundos, no seu cantinho, quietinha, acolhendo tantas preces e palavras que se dão em seu derredor, nos acompanhamentos, formações, no coro grave do Terço dos Homens, nos encontros dos grupos de oração. Ela que contempla, todos os dias, a Cruz do seu Filho posta no alto da torre branca visível de seu posto, fazendo referência ao dia da dolorosa Paixão de Nosso Senhor. Torre de onde ecoa, através de badalos, a voz dEle, chamado os fiéis ao seu compromisso, confirmando as divinas moções do Espírito.

Casa de um tal Jesus! Ah, esse tal Jesus, que rasga os véus de tantos corações empedernidos. Jesus que não se encontra apenas na Capela, escondido no Sacrário ou exposto no Ostensório. Encontra-se em toda a casa, nos oferecendo os pés de Sua Cruz, pra sermos lavados por seu Sangue Redentor. E quão bela é a imagem de Seu precioso Coração, que está sempre aberto, oferecendo o repouso a todos aqueles que estão cansados, sem lugar para descansar.

Casa de um pátio enorme, onde ocorrem as Celebrações Eucarísticas, onde ocorrem os momentos comunitários, os Seminários de Vida - porta de entrada para muitos corações desejosos de um encontro pessoal com o Anfitrião. Onde, enfim, podemos dizer a uma só voz: Elegemos-Te Senhor, como nossa riqueza, em Ti está o nosso coração. Nossa Herança, nossa Fortaleza, nossa Vida e Salvação. Bendito seja o Senhor por esta casa!

Casa de tantas salas, de tantos ministérios, de tantos grupos, de tantos projetos e obras. Divinas Obras! Casa de tantos filhos e filhas que lutam dia a dia buscando a santidade, em meio aos percalços do mundo. Pastores, intercessores, músicos, cantores, atores, atrizes, circenses, escritores, pintores, escultores, fotógrafos, artistas que ainda não encontraram sua arte, pessoas especialistas na difícil arte de viver. Frutos do Divino Artista, ministros do Louvor e da Alegria, consoladores do Sagrado Coração, unidos para anunciar a Glória do Cristo Ressuscitado e para sempre, sempre dar o Recado que vem dos Céus! Ó bendita casa! Santa casa! Casa Mãe, casa Pai, casa do Pai!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Imagem

Acordei cedo. Ela também. Meus olhos, ainda pesados de sono, prendiam-me a cama. E ela, também presa, com os olhos também pesados, retinha-me. Levantei-me num salto, vencendo os seus braços. Banho, roupas, café da manhã e logo já estava pronto para mais um dia de trabalho, de lutas. E ela também.

Saímos juntos, como sempre. Ambos no carro, calados, ouvindo o mesmo som de todos os dias. Som do som, som do trânsito, som das pessoas na rua. Um breve momento de oração, antes da chegada ao trabalho. Uns seis quarteirões antes, pra ser mais preciso. Um Vinde Espírito Santo, um Pai Nosso, uma Ave Maria e um Santo Anjo do Senhor. Rezamos juntos, mais como um compromisso do que como uma reza de fato. E de direito! Momento mecânico, muitas vezes. Raramente vem do coração. Estacionando, dizemos o "Oh Maria concebida sem pecado". Já fora do carro, vem o "Coração Divino de Jesus, providenciai!". Providenciai! E como enchemos o peito para pronunciar isso! Cheios de razão!

Dia difícil. Eu correndo de um lado para o outro. Ela, também. Esbarramos-nos em alguns momentos, mas nada de interações. Somente ações. Ligações, reclamações, discussões. Estresse. Entardece. Anoitece. Hora de ir embora. Encontramos-nos no carro. Nenhuma palavra. Apenas uma troca singela de olhares e um sorriso amarelo. Seguimos. Passando por uma capela, lembro que aquele era dia de Adoração. E qual não é? Reduzo a velocidade, procuro parar. Não, vamos para casa! - Clama ela quebrando o silêncio que imperava. Estamos cansados, exaustos, não temos tempo pra isso. Sou vencido, não reajo. Apenas obedeço a vontade que se sobrepõe a necessidade.

Chegamos ao lar. Banho, pijamas, jantar. A televisão grita, como se fosse a dona da casa. Cospe sobre nós todas as mazelas deste mundo. Levanto irritado. Desligo o eletro indomesticável com rapidez. Contra a vontade dela. Meu coração está inquieto, agitado. Decidido, resolvo quebrar o gelo entre nós. Ponho-me diante do espelho e inicio uma longa conversa, uma longa reflexão: Ah, Imagem cheia de vontades, cheia de quereres, cheia de si! - Assim comecei minha explanação. E após muitas lágrimas, soluços e véus rasgados, tomamos posse da Graça que há muito estava esquecida: Somos filhos do Alto! Ela, a minha Imagem refletida no espelho, e eu, pobre cristão, somos Imagem e Semelhança dEle, que estava de lado neste texto - e nas nossas vidas - até então. E Ele, ah, Ele! Sem Ele, não seríamos imagem, não seríamos semelhança, não seríamos espelho, não seríamos nada.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Aliança

Olhou-me nos olhos e disse sorrindo: Recebe esta Aliança, como prova do meu Amor! Dei as costas e lentamente me dirigi à porta da frente. Nem sequer ouvi o pranto que se desdobrou. Lá fora, a Liberdade aguardava-me montada num lindo cavalo branco. Num salto, montei, e após um alto grito de "Avante!", corremos desenfreadamente pelo mundo.

A vida foi passando, o cavalo foi cansando, definhando, atrofiando, mirrando, morrendo. A Dona Liberdade, antes a mais bela de todas as princesas, embriagou-se com os vinhos doces do tempo e tornou-se a mais insuportável de todas as megeras. Andava despenteada, usando vestidos encardidos. Banqueteava-se com antidepressivos, antiamigos, antifelicidades. Desfigurada, desequilibrada. E desequilibrada estava quando abriu a porta do barraco onde morávamos e saiu correndo em busca da manada de cavalos brancos que disse ter visto passar. Nunca mais voltou.

Fiquei sem chão. Saí pelo mundo, vago, vagando, divagando, devagar. Sem comer, sem beber, sem falar, sem amar. Sem nenhum verbo que pudesse me valer. Preso às cadeias deixadas pela Liberdade. Solto nesta terra de tristezas e crueldades. Vaguei até perder completamente as forças e desmaiar à sombra de uma antiga construção.

Acordei com um estrondoso badalo. Olhei para cima e vi uma cruz no alto daquele prédio. Reconheci o local. O cinzento cavalo da desilusão me trouxe ao mesmo lugar onde, naquele dia infeliz, montei no alazão da Liberdade. A porta estava aberta. E cansado, sofrido, desiludido, mas decidido, entrei. E Ele estava lá, de pé, na mesma posição que estava quando O deixei. Então rasguei o meu coração dizendo: Senhor, eis-me aqui, pra receber a Aliança que naquele dia recusei. Apaga as minhas faltas, enxuga as minhas lágrimas, acolhe as minhas lástimas. Olhou-me nos olhos e disse sorrindo: Recebe esta Aliança, como prova do meu Amor!

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sementes

Caminho com dificuldade. Não devido às pedras e os espinhos que encontro na estrada. Mas devido ao grande volume que se encontra em meus bolsos. São sementes. Muitas sementes! Todas trazidas lá do Celeiro, onde há sacas e mais sacas de sementes. Uma fonte inesgotável de sementes. Uma riqueza sem fim!

Constantemente vou lá. Encho os meus bolsos e saio por aí, a semear. É a minha função. Minha missão. Carrego tanto os bolsos que fico assim, cambaleante, lento. E à medida que vou andando, vou lançando-as nos campos, uma a uma.

E são sementes de todos os tipos. Não as escolho. Algumas se tornam poemas, que crescem, crescem e tomam toda uma folha de caderno. Outras, de tão poéticas, não se contentam apenas com folhas de papel e ganham os ares. Tornam-se músicas. E embora seja redundante, é bom frisar que se tornam músicas com poesia! É, tem que ter poesia. Música sem poesia é como pirão sem farinha, não passa de caldo! E caldo sem tempero. Água e sal, como uma bolacha, que só enche bucho, não alimenta! Encher ouvidos não basta! Tem que preencher corações! Outras, levadas pelo vento aos mais distantes palcos, tomam forma e tornam-se esquetes, peças. São sementes teatrais que encantam, antes, os corações dos divinos artistas, para depois encantar os corações espectadores.

Há também aquelas que não foram semeadas, infelizmente. Talentos enterrados nos bolsos do esquecimento e do desleixo. Secaram com o tempo. Somos falhos. Uma ou outra se perde. E o mais duro é saber que um ou outro coração também pode perder-se porque não recebeu aquela determinada semente. Mas não devemos desanimar. Devemos aprender com os erros e confiar na Misericórdia do Dono do Celeiro.

E quando as sementes findam e os bolsos estão vazios, ah, agora sim! Posso correr livremente! Mas não corro! Não nasci para ficar correndo por aí! Dirijo-me ao Celeiro em busca de novos grãos. E já estou precisando de um novo uniforme de trabalho, com bolsos maiores. Há muitos poemas para escrever, muitas músicas para criar, muitas peças para formar, muitos campos para plantar, muitos corações a alcançar.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Revolução

Chegou a hora! Vamos começar a Revolução! Convoco todos os soldados a tomarem suas armas: lápis, papéis, tintas, telas, vozes, instrumentos musicais, malabares, perucas, narizes, maquiagens, figurinos e esquetes. E não esqueçam o arsenal principal, pois a revolução é mundial e irá atingir o nível nuclear, secular: Missa, Adoração, Bíblia, terço, confissão! Joelho no chão! Revolução nuclear para alcançar o núcleo dos corações empedernidos.

Vamos invadir os palcos, tão cheios de estrelas e vazios de Arte. Vamos renovar os discos, tão cheios de músicas e vazios de Música. E falando em música, queridos músicos, vamos arranjar meios de criar novos arranjos. Chega dos desarranjos auditivos, das diarréias sonoras! Chega das mesmas letras! Há tantas no alfabeto! Caros poetas e letristas, Jesus não rima apenas com Cruz, com Luz. Basta de rimas pobres! Poema tem que ter poesia, senão é só mais um texto! Jesus rima com tanta coisa! Jesus rima com Arte! Dançarinos, menos corpo, mais Espírito!

Circenses, é hora de rasgar as velhas empanadas! É hora de se deixarem molhar pela chuva de Graças que não cessa de cair!

Malabaristas e equilibristas, chega de andanças na corda bamba! Chega de desequilíbrios! O bom mesmo é seguir em frente, andando em linha reta. Chega de olhar para baixo. Olhem para o Alto! Busquem o Alto! Não fiquem balançando da direita para a esquerda, da esquerda para a direita. O caminho que leva ao Céu é estreito, mas é reto. Lancem para cima, junto com os malabares, todas as suas preocupações, tristezas e angústias. E caso venha a cair algo no chão, não se desesperem. Há sempre uma nova chance! Um novo picadeiro, um novo público! Respeitável público! E pirofagia só fica bonito quando o fogo vem de dentro, literalmente! Fogo do Batismo! Línguas de fogo!

Trapezistas, subam, subam o mais alto que puderem! Corda, tecido, não importa! Quanto mais alto, mais lindo fica o show! Mais linda fica a Vida! Vida em abundância!

Ah, e quanto a vocês, Palhaços? Haverá ofício mais nobre do que o vosso? O de fazer Graça? Divina missão! Acho que Jesus voltará como um de vós! Se é que já não anda por aí, arrancando as mais libertadoras gargalhadas!

Povo do Teatro, salve, salve! Chega de astros e estrelas! Não somos astrólogos! Energia positiva só na tomada! E cuidado com o choque! Energia boa é a que vem lá de cima. E quebrem a perna: da soberba, do egocentrismo, do orgulho!

Vamos fazer como o nosso Criador, o Artista Mor! Vamos pintar o sete em sete dias e criar um mundo novo, repleto de Arte e de Amor. E para isso, vamos abrir o tão esquecido Baú de Criatividades, chamado Espírito Santo, com o auxílio, o Louvor e a Alegria de Maria, que é a maior de todas as coadjuvantes, protagonista do maior de todos os esquetes que o mundo já viu: A Salvação. E vamos à Revolução!

sábado, 23 de julho de 2011

Encontro


Na ânsia do Divino Encontro,
alcanço o desencontro
e me canso porque não encontro
Aquele que me encontrou.

E encontrado sem encontrar,
não encontro meios de encontrar,
pois procuro, nos desencontros,
o que se encontra no meu amar.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Saudade

Encontrei numa velha gaveta, uma velha palavra chamada "Saudade". E que dor no peito este achado me deu! Eu e a minha velha mania de procurar as velhas coisas esquecidas nas velhas gavetas! Quem me dera ter achado outra palavra: "Amizade", "Bondade", ou quem sabe a tão sonhada "Felicidade"! Revolver a gaveta das "ades" dá nisso.

Com extrema rapidez, tentei devolver a referida palavra ao seu lugar, mas já era tarde! Dei as costas a gaveta e senti saudades da "Saudade". Ela age depressa! Penetra a pele, cai na corrente sanguínea e, em milésimos de segundos, aloja-se no coração. E quem sabe se não é neste último o seu devido lugar? Acho que "Saudade" não combina com gavetas. Bem, não sei, mas me disponho a pesquisar. E para auxiliar minhas pesquisas, ando coletando "Saudades". Já tenho um frasco cheinho delas, branquinhas, inquietas, lacrimejantes. Já tenho até um local de trabalho! Chama-se "Vida". E todos os dias, neste laboratório, sei que encontrarei as condições ideais para o meu estudo. Talvez, ao final das minhas descobertas, eu receba um Nobel! Ou talvez receba apenas algumas lágrimas, alguns apertos no peito, alguns... Quem sabe?

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Encanto

Lá no vale do encantado,
o encanto desencantou,
quando se encantou com o Alto
e para o Alto se voltou.

Descobriu que lá no Alto,
vive o verdadeiro Encanto.
E hoje canta para o Encanto
que lá no Alto encontrou.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Alto



Subi ao alto cume
da montanha mais alta,
em busca do Perfume que exala
do alto das nuvens mais altas.

Procurava nas alturas
um altar pra Te respirar
e estavas bem aqui, tão Alto,
nas alturas do meu pensar.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Amigo

De braços dados contigo,
querido amigo,
enfrento o tenebroso abismo,
para os incautos, um atrativo.

Após um profundo suspiro,
o salto eu arrisco,
no rosto um sorriso
e no peito um alívio.

Descubro que voar eu consigo,
com as asas do amigo,
por cima do perigo
e das garras do inimigo.

Na direção do Infinito,
no ar eu prossigo,
com o coração tranquilo
nas asas do amigo.