terça-feira, 20 de março de 2012

Ardor

Espremi a laranja com a força da minha mão.
Chorou de dor,
a alaranjada.
Pobre coitada!
E a lágrima rolou,
sem dizer nada.
Até encontrar o canto de unha,
dizendo: "Cheguei a casa!"
Chorei de ardor,
pedindo desculpas a esbagaçada.
Calvário de indicador.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Transbordamento

O copo nunca ficou totalmente seco.
E há muito não ficava totalmente cheio.
Encheu.
Transbordou,
despejando Graças para todos os lados,
saciando a sede dos que ali estavam.
Bebendo,
servindo.
E até dos que não estavam.
Esperando,
dormindo.
Copo colorido,
cheinho de pessoas coloridas,
pintadas com as cores da Renovação.
Explosão de um Carisma que nasceu pra explodir.
Nas Artes,
nos corações.
Seres coloridos respirando,
louvando,
se alegrando,
explodindo,
transbordando.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Meia-titela

Deu-me na titela a ideia de ser poeta.
Bem no lado esquerdo,
onde vivem as borboletas e os rouxinóis.
Poeta de meia-titela!
Veio a lança, após a hora nona,
e transpassou-a.
Derramou-se um rio de Poesia.
Pela brecha aberta, voaram as borboletas,
cantaram os rouxinóis,
nasceram os girassóis.
Apareceu o joão-de-barro,
com a boca de terra,
e construiu o seu palácio.
Plácido.
Dum cuspe só!
Haja água a escorrer.
E não há tigela que retenha,
nem represa que convenha.
Só o mar de outra titela,
onde irá desembocar.
E um dia novamente irá jorrar,
quando a lança aparecer
e a meia-titela rachar.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Noite poética

A Noite aquietou-se em pensamentos.
Tomou uma das penas do pavão,
molhou a ponta na levada barrenta
e pôs-se a escrever poesia,
nas costas nuas do outro dia.
Quando deu por fim,
o Sol já ardia,
nas costas queimadas do novo dia.
O Pardal, do alto da sua morada,
leu os versos noturnos da Noite,
de forma bem cantada.
O Sol se riu
dos versinhos faceiros da Enluarada.

terça-feira, 13 de março de 2012

Café

O cheiro do café me leva ao Céu.
Cheiro que nasce na cozinha,
e logo preenche a casa todinha!
A tapioca chega se arrepia,
pois sabe que vai ter companhia!
É a presença do amado!
Incenso perfumado.
Xicarado.
Em pano velho coado,
pra dar mais sabor.
Igual panela velha.
Beleza do velho gerando o novo.
Cheiro novo.
Gosto novo.
E tem Fé no próprio nome.
Deve ser por isso que é tão bom!
Esquenta,
revigora,
reanima.
Ah, Senhor, eu creio, mas aumentai o meu café!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Bemtevinês

Aprendi bemtevinês com os bem-te-vis do meu quintal.
Em menos de um mês, estava fluente.
Fluindo!
E os pássaros se rindo com as piadas que eu contava.
E alegravam-se com as músicas que eu cantava.
Piava.
O Pardal, ao me ver piar, dizia: "Bem-te-viu, bem-te-vê!"
Dizia em bemtevinês, pra que eu pudesse entender.
Agora vou aprender o pardalês.
Talvez demore mais de um mês.
Língua complicada, essa de vocês!
Sem consoantes e sem vogais,
somente com seus piais!
Beijaflorês fica pra depois.
Há necessidade de se fazer muito bico.
E bico em excesso, por ora, basta-me no francês.

domingo, 11 de março de 2012

Chicote

Trancei um chicote de cordas com os punhos da rede.
Acorda!
Gritei, num ímpeto de cólera.
Meu cem por cento humano falando mais alto,
espalhando moedas pelo chão.
Resposta ao clamor do meu cem por cento divino,
escondido pelo peso dos desejos.
Peso que me impedia de decolar.
Zelo que me consome.
E foi boi pra todo lugar.
Ovelhas pra ali e pra acolá.
A Pomba pôs-se a voar.
Velhas vestes rasgadas a chicotadas,
exibindo o Templo que estava às escuras.
Chicotadas às claras!
Destruí vós este chicote,
e em três dias será reconstruído,
quando a Pomba do Céu voltar!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Chuva no Mar

E de repente, o Céu despencou no Mar.
Deram-se os braços e começaram a dançar.
Foi água pra todo lugar.
Vi muito anjo mergulhando.
Muito peixe a voar.
Querubim sunga trajando.
Ariacó pôs-se a levitar.
E eu na praia só olhando,
até os braços descruzar.
Corri desfazendo-me em chuva,
nadando nas águas do Céu,
voando nas nuvens do Mar.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Mulher

Procurei na gaveta um poema sobre o Dia da Mulher,
uma homenagem qualquer.
Mas não existe homenagem qualquer,
nem poema qualquer,
nem dia qualquer.
Principalmente quando se trata de Mulher!
E qualquer tentativa de escrever qualquer homenagem para o Dia da Mulher,
não será uma tentativa qualquer.
O "qualquer" tá na cabeça do homem.
Pronome indefinido que foi queimado em meio a sutiãs,
junto com outras amarras!
Mulher é substantivo,
e muito bem definido!
Feminino.
Um dia, me atreverei a escrever algo para o Dia da Mulher.
Quem sabe num "Oito de Março" qualquer,
ou em qualquer outro dia qualquer?
Qualquer que tenha sido a costela arrancada,
na força bruta ou de forma amena,
já valeu muito a pena!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dez para o meio-dia

O relógio para.
São dez para o meio-dia.
A fome eterniza-se
nas barrigas da agonia.
A criança chora,
a mãe pede alforria.
O tempo não passa,
não chega o meio-dia.
A fome devora.
Peristáltica melodia!
A mãe procura em vão
o pai de sua cria.
O menino não resiste,
são dez para o meio-dia.
A mãe derrama lágrimas
sobre o manto que encardia.
Deus chora no céu
as dores que o homem cria.
O Pão que Ele repartiu
não chega a quem deveria.
E no seu divino relógio,
são dez para o meio-dia.