segunda-feira, 2 de abril de 2012

Verdade

A Verdade bateu à minha porta.
Abri e Ela entrou,
com jumento e tudo!
As verdades,
aquelas com "v" minúsculo,
assombraram-se com a visita.
Levantaram-se da mesa
da cozinha,
onde tomavam café fraco,
e saíram pela porta dos fundos,
calçadas com meias encardidas.
Deixaram suas xícaras,
meio secas.
A Vida,
que estava meio morta,
encontrou um pleno
motivo para ser inteira.
Completa.
Íntegra.
Feliz.
Verdadeira.

domingo, 1 de abril de 2012

Jumentinho

E entraram na Cidade da Luz,
a passos cavalgados,
flutuantes,
por sobre mantos e ramos.
Agitação de galhos de cajueiro,
perfumando as ruas
com cheiro de caju doce.
Jumento levitante,
carregando Peso leve
que caminha por sobre as águas.
Lá pelas tantas,
estremeceu de cócegas.
Arrepio de desenho de cruz
nas costas,
pintado com pó de carpintaria.
Marca que não se apaga,
gravada nos pêlos
e no coração.
Ao final de tudo,
desenho tomou forma
e carregou o Homem,
da Morte pra Vida.
Jumento ficou.
Dizem que ainda vive,
por aí,
contando parábolas
e fazendo Poesia.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Madrugada

A Manhã roubou o véu da Noite.
Queria tomar banho de lua.
Manhã penumbrada,
tornou a ser Madrugada.
O galo pôs-se a cantar,
estranhando o acontecido.
"Eita, Manhã desajeitada!"
Gritou o Sol, com cara de entardecido.
Entristecido.
Volta, Manhã, não seja mal-agradecida!
Enegrecida!
Ensolarada tu fica mais bonita!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Indigestão

Comi o Pão que a Poesia transubstanciou.
Fiquei com a barriga cheia de versos.
Desde então,
há uma constante movimentação
de poetas peristálticos.
Borboletas esvoaçantes,
roçando suas asas
nas paredes internas.
Obrando.
Estrofando.
Poemando.
Azia prazerosa de um sistema ativo.
Digestivo.
Criativo.
Inventivo.
Produtivo.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Impossível

Só posso ir
até onde me é possível.
O que passa disso,
não me atrevo a passar.
Nem mesmo sei usar
ferro de passar!
Pra mim, isso ainda
é impossível.
Deus sabe passar,
pois aprendeu com Nossa Senhora.
Pra Ele, o impossível
não passa de duas letras
além daquilo que posso.
E de letras,
Ele entende muito bem,
mesmo escrevendo torto,
e passando pano velho.

terça-feira, 27 de março de 2012

Passaverso

Minhas crias cresceram e bateram asas.
Foram-se do ninho.
Sina de passarinho.
Passaverso.
Foram em revoada.
Versoada.
Um caiu no chão,
não respeitou o tempo da maturação.
Faltaram-lhe as asas.
Estavam pouco desenvolvidas e...
Caiu no chão!
Coisas da vida!
Os outros saíram batendo versos por aí.
Foram-se pela Vida,
movidos pela Vida,
gerando Vida.
Passavida.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Aniversário

Hoje é dia vinte e seis,
do mês três.
Faria vinte e três,
se seguisse a ordem inversa dos fatos.
Mas faço trinta e dois,
seguindo a sucessão dos atos.
Ando pra frente,
como o tempo.
Trinta e poucos passos,
dados sobre solo firme e cadafalsos.
Cada piso falso,
riso falso.
Sobressaltos!
O Pardal deu-me um par de asas.
Agora posso voar,
para longe do asfalto.
Solo firme,
só no galho do cajueiro.
Lá no Alto!
Balança,
mas não cai.
E para ao Céu chegar,
basta-me um salto!

domingo, 25 de março de 2012

Semente

Caí no chão e não morri.
Não dei frutos.
Nem flori.
Imatura insistência de não morrer.
Desobediência de criança,
apegando-se à vida que se perde,
aos poucos.
O Pai perdoa.
E onde está a Planta,
também está a Semente.
Servindo.
A Planta diz, com voz de trovão:
"Chegou a hora da glorificação!"
Apesar da angustia,
a Semente, elevada, cai no chão.
E morre.
Sina de Semente,
de ser gente.
Frutificação!

sexta-feira, 23 de março de 2012

Seu Chico

* Em homenagem ao mestre Chico Anysio.

E os querubins desmancham-se em risadas:
"Ai, para com isso, Seu Chico!"
Risadinhas doces,
com cheiro de criança em parque de diversão.
Asas esverdeadas,
de tanto rolarem pela grama.
Picadeiro montado no campo
que há por sobre as nuvens.
Palhaço sem nariz,
mas com mil e uma faces.
E em cada face um palhaço.
Cheio de Graça,
e agora mais do que nunca!
"Triunfante público!"
- Grita a Voz de Trovão,
anunciando a chegada do humorista.
Foi-se o homem,
pra Anysiar o Céu.

Infanticídio

Cometi um infanticídio
quando matei a minha infância.
Cresci,
achando que ser grande me bastava.
Crescido.
Acrescido de experiências
e de desexperiências.
Me arrependi,
quando as portas se fecharam.
Após quatro dias,
fui ao sepulcro e removi a pedra.
"Vem pra fora, criança!"
Gritei, com confiança.
Ela saiu,
com a boca cheia de algodão doce
e de esperança.