quarta-feira, 11 de abril de 2012

RES

Juntei o RES ao significado das coisas,
quando o Pardal suscitou no meu ouvido
o piado da Boa Nova.
Ressignifiquei as coisas.
Ressuscitei,
ressignificando a vida.
Tudo então passou a ter um novo significado.
Até as insignificâncias!
E as inconstâncias.
Letrinhas poderosas, essas três!
Ressignifiquei até vocês,
revertendo o que estava ao avesso.
Reestruturando,
gerando o SER.
Outro dia, disseram-me que o verbo "Ressignificar" não existe.
Não sei.
Eu existo.
SER.
Sou.
Ressuscitado.
Ressignificado.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Extra ordinário

Subi até o olho da mangueira
pra pegar no amarelo da manga rosa,
que estava paquerando comigo.
Lá no lado esquerdo da casa,
onde o coração bate
quando o galo canta,
depois das três da tarde.
Feri o bucho da bicha
com uma dentada,
e fechei a vista num beijo.
Fui ao Céu e voltei,
numa chupada só!
Pardal enciumou.
A boca ficou tão doce
que o beija-flor quis me beijar!
Descobri o extra que há
no ordinário das coisas.
No ventre das coisas!
É o adocicado do que é comum,
aquilo que está além,
guardado no extraordinário
do simples.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cheiro

Sinhá sentiu no refogado do arroz.
O pai,
no bebê mexendo na barriga da mãe.
A mãe,
na cabeça perfumada do bebê.
O bebê,
na mama da mãe.
O avô,
no café preparado no fogão a lenha.
A avó,
no desbulhado do terço.
A criança,
no algodão doce.
Todo mundo já sentiu o cheiro da Ressurreição.
Eu também senti,
na Alegria que este verso me trouxe.

domingo, 8 de abril de 2012

Nascente

Era tarde da noite
quando o Sol ainda brilhava,
repartindo o Pão entre os seus.
Lá pelas tantas,
foi para o jardim,
junto com o Pardal,
o Bem-te-vi
e o Beija-flor,
e angustiou-se,
começando a se pôr.
Adentrou ao outro dia
numa penumbra
vermelha de sangue,
coroado de espinhos
e de chicotes.
Se pôs às três da tarde,
no topo do monte da Cruz,
e então escureceu,
por completo.
Mundo virou noite,
na nona hora do dia.
E permaneceu assim,
por horas sem fim.
Na madrugada do
terceiro,
o Sol acordou num repente,
vestiu-se de branco,
removeu a pedra
e raiou no Oriente,
para a surpresa dos Ausentes,
rasgando o véu do Poente,
reinando para sempre
no Nascente.

Começos

Deus encheu-me de começos,
lá no começo da infância.
Desde então,
comecei a ver o começo das coisas,
principiando nas lentes do olhar.
Olhei para o Domingo
e vi a Semana começando,
com ramos na mão e gritos de Hosana!
Olhei para a Segunda,
para a Terça
e para a Quarta,
e vi a Entrega se entregando,
lentamente.
Na Quinta,
vi o começo da Missa,
que começou e nunca mais terminou.
Na Sexta,
vi o começo da Cruz,
porta que começou a se abrir.
No Sábado,
vi o começo da Esperança,
que começou a despontar
na Mãe de todas as Vigílias!
E por fim,
no Domingo seguinte
(ah, e que Domingo!),
vi o começo da Vida,
que começou vencendo a morte,
pra nunca mais morrer,
a Vida Eterna e Forte!

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Pão

O Pão bateu asas
e desceu do Céu.
Pousou no ombro
do homem-árvore,
que só anda
e não se cansa.
Fez Graça.
Graças!
Branquinho,
como uma garça.
Menina disse:
"Nunca vi pão com asas!"
Eu vi.
Vejo.
Sempre vejo.
Domingo,
na Comunhão.
É bom
e não engasga.
Passado no Fogo
e na Salvação!

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Bicho verde

E de repente apareceu o bicho verde.
Pousou sobre a minha cabeça de criança.
Quase morreu chinelado, pobre coitado!
Fulminado.
Infante ignorância!
Desviou num salto
e restabeleceu-se no seu posto,
pintando o meu cabelo de verde.
Bicho teimoso.
Teimoso sou eu!
Ele é cheio de Graça,
nas suas antenas e nas suas asas!
Bicho teologal,
juntamente com o Bicho-fé e o Bicho-amor.
Insetos dos jardins das virtudes.
Bicho da espera perseverante.
Veio pra aproximar-me do Céu,
pra ensinar-me a ter confiança,
o bicho verde chamado Esperança.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Música

Pensei que a Música
tivesse se perdido em Si,
num grito agudo,
agonizante,
bemol.
Nota solitária,
crucificada no alto do palco,
sob as luzes opacas
do palco,
na hora nona.
Mas ressuscitou,
para a surpresa do
silêncio do mundo,
na madrugada
do terceiro dia,
num acorde:
"Acordem!"
Cantou,
para os discípulos
que dormiam.
Levantaram
e saíram por aí,
cantando a Boa Nova,
espalhando Melodias.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Verdade

A Verdade bateu à minha porta.
Abri e Ela entrou,
com jumento e tudo!
As verdades,
aquelas com "v" minúsculo,
assombraram-se com a visita.
Levantaram-se da mesa
da cozinha,
onde tomavam café fraco,
e saíram pela porta dos fundos,
calçadas com meias encardidas.
Deixaram suas xícaras,
meio secas.
A Vida,
que estava meio morta,
encontrou um pleno
motivo para ser inteira.
Completa.
Íntegra.
Feliz.
Verdadeira.

domingo, 1 de abril de 2012

Jumentinho

E entraram na Cidade da Luz,
a passos cavalgados,
flutuantes,
por sobre mantos e ramos.
Agitação de galhos de cajueiro,
perfumando as ruas
com cheiro de caju doce.
Jumento levitante,
carregando Peso leve
que caminha por sobre as águas.
Lá pelas tantas,
estremeceu de cócegas.
Arrepio de desenho de cruz
nas costas,
pintado com pó de carpintaria.
Marca que não se apaga,
gravada nos pêlos
e no coração.
Ao final de tudo,
desenho tomou forma
e carregou o Homem,
da Morte pra Vida.
Jumento ficou.
Dizem que ainda vive,
por aí,
contando parábolas
e fazendo Poesia.