sábado, 5 de maio de 2012

Finanças

Quem me dera entender de finanças.
Mas o Poeta quis
que eu entendesse
somente de esperanças,
aquele bicho verde
que ninguém mais vê.
Não vê porque não quer!
Ele ainda anda por aí,
nas folhas da Mangueira,
no cheiro do Sapoti.
Pisoteado pelos entendedores de finanças,
sabedores de ignorâncias,
esquecedores das verdes lembranças!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Nada

Tiraste-me do nada, Homem!
Mas para quê?
Estava eu tão satisfeito,
nadando no Infinito.
Tiraste-me e teceste-me usando os fios de tua barba.
Me fizeste homem com “h” minúsculo,
para diferenciar-me de Ti,
que és todo MAIÚSCULO?
Ou será que o minúsculo da inicial foi uma opção minha?
Não sei!
Delírios de maçã!
Por fim, colocaste em mim o sangue vermelho de tua Realeza.
Ah, quanta nobreza!
Mas para quê, Vossa Alteza?
Quisera eu ter consciência do teu consciente,
inconsciente,
subconsciente.
Onipotente!
Mas para quê?
Não há quem tente.
Ficaria doente.
E descontente!
Resta-me o contentamento da explicação catequética,
aprendida no começo do meu ser gente:
Criaste-me amando, amado, amante.
E isso basta.
Me basta!
Chega de “para quês”!
Chega de “nadas”!
O Amor explica tudo.
O Amor é Tudo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Chá

Não gosto de chá mate.
Acho muito chamativo.
Gosto de Capim Santo,
Espírito Santo.
Gosto de chá vive e
de Água de Batismo.
Aquela que infunde.
Tomo uma xícara
todos os dias,
ao cair da tarde.
Água das cinco.
Doutor disse que é bom
pra curar banzo.
Disse, soprando
nos meus ouvidos.
E depois falou assim:
“Ide!”
Fui,
indo,
tomando,
fazendo,
oferecendo,
chá-mando.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Arrebatado

Nasci de uma Maria e de um José.
Será que vou ser arrebatado nesta esquina?
Ou crucificado no sopé?
A aparência das carruagens de fogo me assusta!
Medo de queimadura!
Assombro de menino
que se queimou no tacho de castanhas.
Ventos Eliasos sopram no Equador.
E no meio-fio também!
Peso de Cruz nas costas.
Ou serão asas?
O anjo é quem sabe!
Guarda-costas.
Gelo na espinha.
Frio de peixe fisgado.
Calor de Filho escolhido.
Expectante.
Galopes ecoam no final da rua...

terça-feira, 1 de maio de 2012

Que Deus cresça

E agora, José?
Quem sou eu pra começar assim?
Atrevimento de menino!
Somente os Poetas começam assim.
Sou só um qualquer,
com manias de José.
Fruto de um José.
Operário.
Carpinteiro,
acostumado a tirar
lágrimas da Madeira.
Com a ponta do martelo
e do serrote.
Eu que não sei de solstícios,
e nem de equinócios,
quanto mais de outros negócios!
Só entendo de Chuvas,
que regam a terra onde
enterrei o osso do ócio
e onde plantei um pé de Deus.
E que Ele cresça!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Banguela

A estrela,
de tão cadente,
caiu.
Caíram também os seus dentes.
E sorriu.
Ficou banguela,
a branquela.
Nunca mais dor de dente sentiu.
Esqueceu-se das querelas.
Aprendeu a ver o lado bom
que há em todas as coisas.
Em todas as bocas,
com dentes
e sem dentes.
Até as com semidentes.
Semibocas.
Hoje vive feliz,
lá pras bandas da Lua,
comendo farinha seca,
usando dentadura.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Velho

Conheci um Homem muito velho,
com um pouco mais
de cinco anos de idade.
Era do tempo que as notas musicais
não tinham nomes,
e só eram vistas com o ouvido.
Do tempo que os olhos serviam
pra tocar as coisas.
E foi assim que me tocou,
com os olhos,
enquanto desescrevia a areia,
com a ponta dos dedos.
Falava em linguagem de versos
e ensinou-me o alfabeto
das invencionices.
Quando dei por mim,
estava falando com voz de lápis,
ouvindo com folha de papel
e tocando as coisas
com a ponta da vista.
Aprendi com o Velhote,
que anda engatinhando por aí,
imitando gia
e escrevendo Poesia.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Exagero

Reza curou olho
de menino
que sofria de exagero.
Via grande
e muito em tudo.
Dia desses,
tava levando carreira
de saraça.
Mãe rezou
pra São Francisco,
que tinha olho pequeno
e morreu cego,
sentindo o Cristo
na ponta da venta
e das mãos.
Reza curta,
sem exageros,
pra não incomodar
muito o Santo.
Menino sarou.
Vive hoje
brincando
com formiga
e conversando
com passarinho.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Barra de Vento

Ontem ouvi uma barra de Vento.
Trouxe notícias do mar,
falando em rugido de ondas.
Converseiro de madugada.
Lembrei-me dos tempos de menino,
quando recebia cartas do mar
na boca da noite,
trazidas pelas barras de Vento.
Infância perdida
dentro de uma casa,
que se perdeu no luar.
Nunca mais vi a casa.
Até ontem,
quando a barra de Vento
sacudiu minhas memórias,
trazendo cartas do mar.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Latim

Sou a quarta pessoa da Trindade,
quando faço o Sinal da Cruz
e beijo a ponta de um dos dedos.
Aprendi com minha mãe,
que sempre repete o gesto
ao passar em frente a uma Igreja.
Costume antigo,
do tempo que se ia
pra Missa pra rezar o terço.
E o Padre lá no altar:
"Qui vivis et regnas in secula seculorum. Amen."
De costas para o povo,
que respondia: "Amém!"
Interrompendo o terço.
Hoje, inverteram-se as posições.
As pessoas vão a Missa
pra ficar de costas para o Padre,
olhando pra rua,
falando em latim.
Terço?
O que é isso?
Ainda bem que
amém continua sendo amém
em todo canto,
como Jesus!
E assim seja,
pelos séculos dos séculos.
Amém!