quinta-feira, 10 de maio de 2012

Poema e Poesia

Peguei o Poema
que estava prestes a voar,
num dos galhos
secos da laranjeira.
E o que ele me fez?
Ah, em Poesia me desfez!
Ferroou-me
com seu ferrão doce!
Adocicado fiquei,
com as mãos cheirando
a laranja madura.
Gripe correu léguas.
Tristeza também.
Poema é bicho
que dá em laranjeira.
Poesia é o adocicado
que ele me dá,
e que não posso
com as mãos tocar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Desenho Geométrico

Bicho sem coração
é transferidor!
Valei-me, meu Santinho
da dor transferida!
Eu gosto é
da ferida transubstanciada.
Dor transformada
em rios de Amor,
que escorrem
do lado transferido.
Transpassado.
Círculos formados
pelos transferidores romanos.
Pregos romanos.
Cruz ferida
e transferida.
Compasso que
se abre para a Salvação,
circuncidando os pontos
que estavam soltos
na enorme folha de papel.
Folha branquinha,
manchada por uma imensidão
de desenhos geométricos.
Circuncidados.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Estouro

Menino, tá falando demais!
Menos é mais.
Nem sempre,
quando é a Graça que faz!
Como frear a Palavra
que me apraz?
Que te apraz?
As porteiras do céu abriram-se
e o Espírito corre
numa manada desenfreada,
levantando a Poeira
que há tempos estava assentada.
Sobe Poeira!
Estouro,
como no dia de Pentecostes!
Quem poderá contê-Lo?
Só o homem,
que é bicho contido.
Menino acha é bonito.
Bota mais boi no pasto,
pra o estouro ser maior!
Estourai!

sábado, 5 de maio de 2012

Finanças

Quem me dera entender de finanças.
Mas o Poeta quis
que eu entendesse
somente de esperanças,
aquele bicho verde
que ninguém mais vê.
Não vê porque não quer!
Ele ainda anda por aí,
nas folhas da Mangueira,
no cheiro do Sapoti.
Pisoteado pelos entendedores de finanças,
sabedores de ignorâncias,
esquecedores das verdes lembranças!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Nada

Tiraste-me do nada, Homem!
Mas para quê?
Estava eu tão satisfeito,
nadando no Infinito.
Tiraste-me e teceste-me usando os fios de tua barba.
Me fizeste homem com “h” minúsculo,
para diferenciar-me de Ti,
que és todo MAIÚSCULO?
Ou será que o minúsculo da inicial foi uma opção minha?
Não sei!
Delírios de maçã!
Por fim, colocaste em mim o sangue vermelho de tua Realeza.
Ah, quanta nobreza!
Mas para quê, Vossa Alteza?
Quisera eu ter consciência do teu consciente,
inconsciente,
subconsciente.
Onipotente!
Mas para quê?
Não há quem tente.
Ficaria doente.
E descontente!
Resta-me o contentamento da explicação catequética,
aprendida no começo do meu ser gente:
Criaste-me amando, amado, amante.
E isso basta.
Me basta!
Chega de “para quês”!
Chega de “nadas”!
O Amor explica tudo.
O Amor é Tudo.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Chá

Não gosto de chá mate.
Acho muito chamativo.
Gosto de Capim Santo,
Espírito Santo.
Gosto de chá vive e
de Água de Batismo.
Aquela que infunde.
Tomo uma xícara
todos os dias,
ao cair da tarde.
Água das cinco.
Doutor disse que é bom
pra curar banzo.
Disse, soprando
nos meus ouvidos.
E depois falou assim:
“Ide!”
Fui,
indo,
tomando,
fazendo,
oferecendo,
chá-mando.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Arrebatado

Nasci de uma Maria e de um José.
Será que vou ser arrebatado nesta esquina?
Ou crucificado no sopé?
A aparência das carruagens de fogo me assusta!
Medo de queimadura!
Assombro de menino
que se queimou no tacho de castanhas.
Ventos Eliasos sopram no Equador.
E no meio-fio também!
Peso de Cruz nas costas.
Ou serão asas?
O anjo é quem sabe!
Guarda-costas.
Gelo na espinha.
Frio de peixe fisgado.
Calor de Filho escolhido.
Expectante.
Galopes ecoam no final da rua...

terça-feira, 1 de maio de 2012

Que Deus cresça

E agora, José?
Quem sou eu pra começar assim?
Atrevimento de menino!
Somente os Poetas começam assim.
Sou só um qualquer,
com manias de José.
Fruto de um José.
Operário.
Carpinteiro,
acostumado a tirar
lágrimas da Madeira.
Com a ponta do martelo
e do serrote.
Eu que não sei de solstícios,
e nem de equinócios,
quanto mais de outros negócios!
Só entendo de Chuvas,
que regam a terra onde
enterrei o osso do ócio
e onde plantei um pé de Deus.
E que Ele cresça!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Banguela

A estrela,
de tão cadente,
caiu.
Caíram também os seus dentes.
E sorriu.
Ficou banguela,
a branquela.
Nunca mais dor de dente sentiu.
Esqueceu-se das querelas.
Aprendeu a ver o lado bom
que há em todas as coisas.
Em todas as bocas,
com dentes
e sem dentes.
Até as com semidentes.
Semibocas.
Hoje vive feliz,
lá pras bandas da Lua,
comendo farinha seca,
usando dentadura.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Velho

Conheci um Homem muito velho,
com um pouco mais
de cinco anos de idade.
Era do tempo que as notas musicais
não tinham nomes,
e só eram vistas com o ouvido.
Do tempo que os olhos serviam
pra tocar as coisas.
E foi assim que me tocou,
com os olhos,
enquanto desescrevia a areia,
com a ponta dos dedos.
Falava em linguagem de versos
e ensinou-me o alfabeto
das invencionices.
Quando dei por mim,
estava falando com voz de lápis,
ouvindo com folha de papel
e tocando as coisas
com a ponta da vista.
Aprendi com o Velhote,
que anda engatinhando por aí,
imitando gia
e escrevendo Poesia.